Entre a denúncia e a poesia | Fábio Gatti
A pandemia que assolaria o mundo ainda não tinha se instaurado. Porém, em um Brasil governado pela extrema-direita já predominavam displicência, negacionismo, genocídio. Ecoando desde 1492 como herança do imperialismo, essas palavras formam uma coluna erigida com argamassa, ferro e sangue. Por onde o pensamento colonial transitou – e ainda transita – ele disseminou suas violências. Nele, as forças de um capitalismo neófito se desenharam com astúcia, de modo a solidificar seu modus operandi: predatório, ilusionista, devastador. Prova disso, manchas de dinheiro cru a boiar nas águas colonizadas dos trópicos chegaram ao Nordeste brasileiro em 30 de agosto de 2019, separando-se pela força das correntezas. No dia 01 de outubro do mesmo ano, as massas de óleo atracaram na praia de Santo Antônio, no município de Mata de São João, litoral baiano. Não tardou para que o óleo se comportasse como o próprio capital: intoxicando e matando as pessoas de fome e os demais seres por falta de ar. A imagem-crime não pertencia a ninguém. Afinal, existe culpa no capitalismo? Há futuro sem Terra? Quanta tragédia compõe um delito? Mesmo após a descoberta da origem do óleo e dos prejuízos envolvidos, não houve responsabilização de fato.
Um ano depois, em outubro de 2020, no intervalo entre a primeira e a segunda onda de contaminação pelo novo coronavírus, a Chapada Diamantina sofreu com incêndios de proporções catastróficas. A hipótese sustentada foi a de crime ambiental. Uma vez mais, as pessoas continuavam a ser assassinadas por uma necropolítica explícita do governo federal brasileiro. O afrouxamento das leis regulamentadoras, a bancada ruralista e a troca das chefias de várias seções da rede do SISNAMA (Sistema Nacional de Meio Ambiente) formada pelo Ibama, ICMBio e Inea são algumas das posturas que validam a recidiva da capitalose – infecção generalizada deflagrada por um estado capitalista mórbido. Mas, quanto futuro o dinheiro pode comprar?
Pesquisas atuais sobre os impactos ambientais revelam que o nível destrutivo das ações humanas já pode ser considerado mudança de período geológico. Saímos do Holoceno para o Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno ou Chthuluceno[1]. Independentemente da nomenclatura, importa saber que os recursos naturais se esgotam, mais rápido, a cada ano. O aumento dos níveis de substâncias químicas tóxicas usadas, a diminuição drástica de diferentes ecossistemas, a acidificação dos oceanos, o crescimento populacional e a extração de petróleo, bem como a criação sempre maior de matérias-primas para a indústria alimentícia, de moda e farmacêutica, são alguns dos fatores que colocam em risco a recursividade e promovem a grande aceleração[2]. Esse cenário de fim de mundo se torna o substrato com o qual Mateus Morbeck realiza sua produção artística e afirma sua postura política. Para tanto, ele atuou no recolhimento do óleo com o grupo Guardiões do Litoral e acompanhou in situ o trabalho de brigadistas voluntários no combate aos incêndios no Parque Nacional da Chapada.
Enquanto bilionários pagam pelo congelamento de seus corpos e/ou cabeças, a fim de serem ressuscitados por empresas de biotecnologia, e investem em projetos que pretendem levar vida humana para Marte até 2050, Bruno Latour[1] afirma inexistir possibilidade de viver ‘fora da Terra’, apenas dentro dela. A ideia de espaço, nutrida pela cinematografia e literatura e responsável por alimentar o imaginário humano até aos anos de 1980, mostrou-se impossível. Não há saída daqui. A esperança de um futuro que não seja bárbaro, como sugerido por Isabelle Stengers (2015)[2], está posta em xeque. No Brasil, os povos originários e a população negra, cujos ancestrais foram escravizados, enfrentam o fim de seus mundos desde a colonização, como bem expôs Carlos Mondragón (2017) ao analisar o extermínio da população ameríndia. A ideia de um processo apocalíptico representa, segundo Mondragón, “o fim do social, e com ele o fim do afetivo, do estético, e do material que fazem distinguir um mundo humano[3]”. Compartilhando desse entendimento e visando chamar atenção à necessidade de manter acesas as relações ecossistêmicas em todas as suas formas, Mateus Morbeck recorre à arte como instrumento de crítica.
A exposição é um franco convite à reflexão conjunta sobre os modos de vida; os imperativos do poder e suas reverberações; a inação dos governos mundiais e seus tratados; a aniquilação do futuro no presente; a procrastinação como paradigma; o dinheiro como morte. A organização dos cinco trabalhos aqui apresentados evidencia a ideia defendida por Ailton Krenak, de que a vida não é útil[4], de que o progresso e toda a tecnologia disponíveis não salvarão a Terra se continuarmos a comê-la. Logo, Mateus agencia o tempo como um aspecto decisivo na compreensão de seu discurso visual e poético.
Em Amanhã também foi assim, É tudo depois e Era escuro, depois chão, a marcação da passagem do tempo é reorganizada de modo a desvelar a manutenção do extrativismo: as ações produzidas pela repetição contínua, o adiamento deliberado das decisões e os procedimentos cobiçosos das instituições. Por meio da sobreposição de camadas dos dias de incêndio na Chapada Diamantina, Amanhã também foi assim se apresenta como um horizonte, em que cada imagem revela a própria existência e declara que a vida só existe na interrelação dos espaços e do tempo com os seres e a pluralidade de ecossistemas. Nenhuma imagem sozinha é autossuficiente. Todas são interdependentes e suas vidas marcadas pela sociabilidade, e não pela exclusão. É tudo depois, instalação homônima à mostra, sugere uma dinâmica espacial singular: uma folha única, diminuta e carbonizada, dentro de uma cor também específica, ampla e vibrante, embora morta. O cotejo entre sobrevivência e vida, a partir do entendimento proposto por Krenak, é levado à potência máxima. A folha e o espaço criminosamente destituídos de suas qualidades e obrigados a serem apenas memória. Uma lembrança-apagamento: um futuro do pretérito.
Era escuro, depois chão revela uma geografia da destruição. Os sobreviventes às queimadas, embora modificados de suas formas originais, são os metais. Recolhidos por Morbeck, eles se apresentam como constelação visual cuja disponibilidade afável no espaço da galeria não apresenta o horror implícito neles. Talvez essas sejam as flores do futuro: permanentes apesar de modificáveis. Quando o céu cair e tudo for esmagado, nem mesmo Omamë[1] poderá ajudar. Enquanto esses trabalhos lidam com a materialidade do fogo e o horror dele advindo, os outros dois, Nem tudo é mar e Meia água, escancaram os problemas capitalistas cujas raízes remontam à prática colonial, de conquista/travessia das águas. Nem tudo é mar faz pensar diretamente na poluição da água pelo óleo cru condensado, mas sobretudo na presença do vento. O mesmo que trouxe as capitanias europeias carregou o petróleo, por quilômetros, espalhando-o por 116 municípios do litoral nordestino.
Mateus compra lençóis, corta-os e os usa como suporte de criação. Desfigurado de sua utilidade, o lençol assume novo papel sem se desvincular da ideia de casa, de cama, de descanso. Se a casa do talassociclo é o mar, a ação de Morbeck, de retirar as manchas de óleo por uma espécie de monotipia, acende a discussão sobre a separação fundada na modernidade entre o humano – a humanidade da qual fala Krenak – e a natureza. Os povos originários e outras populações não compreendem a vida humana dissociada da cosmologia, como o fizeram a história, a ciência e a filosofia brancas ocidentais desde a invenção do cristianismo. Meia água oferece elementos dialógicos aproximativos com Nem tudo é mar. Contudo, sua particularidade se dá pela materialidade do papel e pela montagem: a construção de um mapa que manifesta a capacidade destrutiva das minas de petróleo a olho nu. Entre a denúncia e a poesia, Mateus Morbeck tenta ultrapassar o reducionismo maniqueísta da cultura ocidental. Mas, qual a duração de um pesadelo?
[1] Haraway, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4197142/mod_resource/content/0/HARAWAY_Antropoceno_capitaloceno_plantationoceno_chthuluceno_Fazendo_parentes.pdf
[2] Pesquisa realizada pelo grupo de trabalho liderado por William Steffen na Conferência de Dahalem, em 2005, que cunhou o termo “a grande aceleração” – nome que sinaliza uma alteração drástica do sistema da Terra, colocando tais eventos fora do intervalo de mudanças esperados de forma natural. No artigo de Steffen et. al., os pesquisadores sinalizaram a existência de 12 marcadores biogeoquímicos e outros 12 socioeconômicos como responsáveis pela grande aceleração. (Steffen, W.; Broadgate, W.; Deutsch, L.; Gaffney, O.; Ludwig, C. The trajectory of the Anthropocene: The great acceleration. The Anthropocene Review 2015, 2, 81. [CrossRef])
[3] Latour, Bruno. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno. Revista De Antropologia, 57(1), 2014, 11-31. https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2014.87702
[4] Stengers, Isabelle. No Tempo das Catástrofes. São Paulo: Cosac Naify, Coleção EXIT, 2015.
[5] Mondragón, C. Otros fines del mundo. Revista de la universidad de México, Extinción Dossier, nov. 2017. https://www.revistadelauniversidad.mx/articles/999ca022-1584-4941-b584-048c5025adbf/otros-fines-del-mundo
[6] Krenak, Ailton. A vida não é útil. Cia das Letras: São Paulo, 2020.
[7] Davi Kopenawa descreve a queda do céu como a aniquilação da vida. Vida aqui deve ser compreendida a partir da cosmologia Yanomani. Pela mitologia Yanomami, Omamë escondeu os metais dentro da terra e de lá não deveriam ter sido retirados. ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1849409/course/section/474081/pub405-2.pdf