O alimento, antes vínculo entre terra e corpo, tornou-se cadeia abstrata: uma sequência de operações que já não pertence à vida, mas à lógica corporativa que organiza a existência planetária.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) mais de 31% dos solos do planeta se encontram moderadamente a gravemente degradados, sobretudo em consequência das ações humanas. Além disso, cerca de um terço de tudo que é produzido se perde, não por erro, mas porque o sistema exige desperdício. A perda é método, não falha.
Ainda segundo a FAO, a redução de apenas 25% na perda dos alimentos já seria suficiente para atender as 700 milhões de pessoas que passam fome no mundo atualmente. As curvas do desperdício e da fome não se opõem, elas se justificam. Entre abundância e privação, a renda é a fronteira que transforma o alimento em privilégio. A fome não é ausência: é sintoma.
No trabalho, os rostos substituídos por pivôs de irrigação fazem emergir o que a estatística esconde. O ser humano deixa de ser figura e se torna função, não mais o centro simbólico da cena, mas uma dobra anônima entre extrair, consumir e descartar. O rosto desaparece porque o sistema não precisa reconhecê-lo.
As imagens condensam assim a política do que nos atravessa: satélites que monitoram o planeta, algoritmos que vigiam os corpos e a economia que vê apenas a si mesma.
“31” é um índice do capital que continua a gerar produtos, mas não vínculo; que multiplica o alimento, mas fragmenta o acesso; que produz abundância, mas administra a fome. O sistema transborda em excesso; a terra, violentada e reduzida a recursos, responde com exaustão.