herbarium

[2025]

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Ficha Técnica
Plantas artificiais de plástico derretidas sobre cartões de PVC organizados em formato de matriz.
Texto
O trabalho apresenta uma flora impossível: folhas que não caem no outono, flores que nunca floresceram. Vestígios de uma natureza que nunca existiu derretidos e fixados sobre cartões de PVC em branco, como aqueles que se tornariam cartões de crédito. O que surge é um inventário da vida artificial, um arquivo de espectros em que a promessa de eternidade se revela como ruína.

Espécies inventadas para imitar o orgânico não pertencem a nenhum ciclo vital. Não respiram, não conhecem seiva ou sombra, não se entregam ao tempo das estações. O calor que as deforma revela sua real condição: não mais ornamento, mas resíduo. Nelas se expõe a contradição do material, criado para ser descartável, mas que insiste em permanecer como cicatriz fóssil.

O suporte, símbolo da promessa de futuro antecipado em prestações, aparece aqui vazio, sem inscrição, como tela branca onde o que se grava não é abundância, mas dívida. Plástico e crédito se encontram como duas faces de uma mesma engrenagem civilizatória, que acumula resíduos e hipotecas como herança.

A disposição em matriz evoca a padronização e a produção em série que transforma vidas em dados, identidades em números, desejos em dívidas. É a standardização como forma de poder: tudo cabe no mesmo molde, tudo pode ser arquivado, normalizado, contabilizado.

No entanto, o calor introduz o acaso: cada forma derretida é singular, cada elemento é resultado da entropia. O que era cópia uniforme se torna ruína única; o que era série mecânica se converte em singularidade irrepetível. Paradoxalmente, o acidente devolve ao simulacro uma organicidade perdida, como se a própria natureza, através do acaso, reivindicasse novamente o gesto de criação.

Ao contrário de um inventário da vida, Herbarium é um catálogo de espectros. Suas formas derretidas não celebram permanência, mas a insistência do resíduo que não retorna ao ciclo da Terra. O trabalho não se reduz a denúncia, mas ao desejo de pensar outros presentes. Pois no erro, na ruína e no acaso se revelam os intervalos em que ainda é possível imaginar. Não os futuros hipotecados pela lógica do crédito, mas outros modos de existir, mais próximos do inesperado que a própria entropia insiste em gerar.
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mateus morbeck

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