As descrições físicas de banidos e exilados, contidas em documentos produzidos pelo Centro de Informações do Exterior – CIEX, agência de espionagem ultrassecreta formada por diplomatas e agentes infiltrados brasileiros que funcionou entre 1966 e 1985, retornam aqui como matéria deslocada, convertidas em prompts para um dispositivo que também vigia.
Ao invés de restituir rostos perdidos a “Inteligência Artificial” transcende a realidade objetiva e revela a continuidade das estruturas que administram o visível, entrelaçando a memória e a ficção, o humano e o tecnológico.
No retrato deslocado, meio rosto e meio ruído, não há tentativa de recompor a identidade, mas, sobretudo, a insistência em mostrar a fratura. Os rostos existem e não existem, como se a própria imagem vacilasse diante da violência que deveria narrar.
As imagens questionam as condições que produzem o apagamento. Expõem os circuitos que, antes com agentes infiltrados e relatórios ultrassecretos, e agora com algoritmos, bancos de dados e redes neurais, definem o que pode ser visto e o que deve ser apagado.
A IA fabrica visualidades enquanto administra o apagamento da mesma forma que feita pela ditadura, que não apenas registrava, mas, principalmente, destruía versões, amputava histórias e substituía pessoas por descrições na linguagem da suspeita.
Ao transformar as descrições em imagem, MARGINADOS revela a violência que persiste: o corpo reduzido a dado e a memória convertida no próprio campo de disputa. Entre imagem, algoritmo e arquivo, os retratos gerados não são reconstituições, são espectros críticos que mostram a impossibilidade de recompor efetivamente aquilo que se tentou apagar.